“Nosso negócio é fazer as marcas importarem para as pessoas”


Fernando Musa, presidente do Grupo Ogilvy Brasil

Por Claudia Penteado

Fernando Musa é um dos líderes de maior destaque na publicidade hoje e conversar com ele é entender como pensar o presente e o futuro desse negócio: compreender que o que fez o sucesso de ontem não fará o sucesso de amanhã. “Aliás, talvez seja o que te tire do negócio”, observa. Musa busca a construção de uma cultura do fazer hoje, na qual a palavra-chave é “aprender”. Diariamente.

Há alguns anos, a Ogilvy deu uma grande virada criativa no Brasil e você fez parte dela. Como você define o momento atual, que ações são imprescindíveis para não se perder o que foi conquistado, manter a relevância junto a clientes e ter um negócio saudável?

O negócio saudável passa a entender que nosso negócio é consequência do negócio do cliente. Logo pode parecer básico, mas estar próximo – cliente e agência formando uma unidade só – é fundamental. Os dois lados estão em transformação e agilidade, rapidez, eficiência e transparência são a base fundamental. Ter a ambição e os mesmos objetivos idem. Acertamos juntos e erramos juntos. Nessa relação, confiança também é indispensável. Poder errar, poder ousar, isso tem que ser parte do “acordo”. E entender que a melhor maneira de ser relevante é tendo relevância no trabalho que é feito. Fazer todo dia um melhor trabalho que o feito ontem tem que ser premissa. E nunca esquecer que, apesar de toda transformação tecnológica, de toda informação disponível, de toda mudança, é que a criatividade é o nosso grande diferencial e o principal agente de geração de resultado para ambos os lados. Onde expressá-la, quando e quais os formatos, tudo isso mudou e vai seguir mudando.

Como você enxerga a sua empresa daqui a cinco ou 10 anos? Será um novo business, transformado pelas demandas dos clientes por empresas com novas configurações, serviços e jeitos de trabalhar?

Tem uma transformação concreta em andamento no mundo, na vida das pessoas, na maneira de fazer as coisas, na maneira de comprar, de se relacionar, transformação que se reflete não só na indústria da comunicação, mas em todo e qualquer segmento de mercado. Cinco, dez anos hoje podem representar um século de ontem. Tudo está evoluindo. O que precisamos é estar conscientes e livres para entender, antecipar, mudar junto e viver as mudanças, errando e acertando rapidamente. Desapego é uma boa palavra. O que fez o sucesso de ontem não fará o sucesso de amanhã. Aliás talvez seja o que te tire do negócio. Vejo isso. A construção de uma cultura do fazer hoje. Aprender. Observar, mudar, entender o impacto na vida das pessoas. A velocidade da transformação hoje é impressionante; e entendemos que nosso papel é ter a liberdade de seguir mudando. E o que espero é continuar entregando ideias que movam negócios, consumidores, e que sejam relevantes para os clientes. Como, onde, com qual tecnologia, formatos, frequência, etc., não dá para definir. O que podemos dizer é que nosso negócio é fazer as marcas importarem para as pessoas. 

O que mais se transformou e o que não vai mudar nunca, na sua visão, na propaganda?

O poder de uma ideia. A expressão da criatividade. Isso não muda. Todo o resto já mudou e vai seguir mudando. 

O que inspira você, como gestor, a levar adiante o seu business?

Exatamente o desafio de aprender, implementar e viver esta revolução não somente no nosso negócio, mas na vida das pessoas. A gente precisa gostar de gente e gostar de entender o que isso tudo significa para esta gente. 

E o que desanima você, no cenário atual que vivemos, no Brasil?

O tamanho da oportunidade jogada fora todos os dias com o tamanho da corrupção implantada no País. O que este dinheiro poderia e pode fazer pelas pessoas, pela educação, é desesperador. Além, obviamente, de toda questão burocrática, antiquada e centrada no passado que vivemos. Da legislação a todo modelo político, social do País. É a “tomada brasileira” elevada ao infinito e a quase tudo neste País. 

Quais as conquistas da agência esse ano e como deve fechar esse 2017 imprevisível?

Vamos começar pelo final, fechar o ano conto apenas em dezembro. Estamos vivendo um mês de cada vez. Mas, sem dúvida, 2017 está melhor que 2016. Por outro lado, entendo que os desafios de 2018 serão maiores que os deste ano – primeiro porque 2016 foi fraco, logo 2017 tende a ser melhor de maneira geral, pois a base de todos era menor. E, depois, teremos aí um ano de eleições presidenciais e um pouco antes um mês de Copa de Mundo. Aí entendo que temos que começar forte ou vão faltar meses para cumprirmos os resultados do ano. Tenho conversado com muitos clientes sobre isso, dos mais diferentes segmentos, e é de certa forma um consenso: temos aí de 7 ou 8 meses para fazer valer os 12.

Sobre as conquistas da agência, acredito que a maior de todas é a excelente relação e performance que temos tido junto a nossos clientes. Estamos próximos e vivendo todos os desafios de perto. E juntos. Conquistamos algumas contas e praticamente não tivemos perdas relevantes. Nossa performance criativa é destaque no mercado e na rede. Lançamos a plataforma de conteúdo – com os Content Studios dentro de clientes em alguns casos e aqui na agência também –; lançamos o Cognitive Studio, para explorar inteligência artificial com o Watson, da IBM; e ainda trouxemos a Ogilvy RED para o Brasil. 

Qual a sua visão do papel das entidades e em especial da ABAP?

Fundamentais. Principalmente em um momento onde tudo está em constante mudança, termos as entidades para discutir os impactos e as revisões necessárias nesta relação como um todo.