"O produto do futuro se chama confiança”


Marcelo Rech, presidente da ANJ

Por Claudia Penteado

Marcelo Rech assumiu em agosto do ano passado a presidência da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e vem dedicando seu trabalho à frente da entidade, entre outras coisas, à ampliação da percepção de que a audiência dos jornais, física e digital, é muito expressiva e altamente valorizada. Segundo ele, a era da pós-verdade é verdadeira - e os veículos profissionais, independentemente das plataformas, são a última barreira de contenção contra mentiras e distorções. 

Os jornais encontraram seu caminho no digital, estão mais próximos do modelo que funciona?

Rech - Cada veículo busca uma estratégia de acordo com suas características e mercados. Um jornal de alcance global, com escala mundial, tem seguramente um modelo de receita diferente de um jornal regional. No entanto, pode-se afirmar que a tendência geral é de garantir a sustentabilidade do jornal por meio de assinaturas, sejam elas digitais ou físicas. O público vem aceitando cada vez mais pagar por conteúdos diferenciados e de alta credibilidade, como é o caso dos jornais. O exemplo do The New York Times, embora de alcance global, serve como referência: o jornal atingiu 3 milhões de assinantes físicos e digitais, um número três vezes superior ao da era pré-internet. Ou seja, o digital amplia muito as possibilidades para veículos que fazem da credibilidade e independência a sua marca registrada. 

Que desafios há pela frente, em um ano recessivo e tantas transformações nos hábitos de leitura e na comunicação?

Rech - O principal, no momento, é deixar cada vez mais evidente que jornalismo exclusivo, de alta qualidade e independente tem um valor diferenciado e imprescindível para a democracia e para o desenvolvimento das sociedades. Imagine se em um mundo sem esse jornalismo: viveríamos no reino dos rumores, dos boatos e das notícias falsas espalhadas pelas redes, com sérias consequências sobre a economia e a geopolítica mundial. A verdade é que a era da pós-verdade é verdadeira - e os veículos profissionais, independentemente das plataformas, são a última barreira de contenção contra mentiras e distorções. Curiosamente, a constatação de que o jornalismo profissional é o antídoto para os fakebooks mundo afora está produzindo o renascimento e a revalorização dos conteúdos profissionais agregados em torno das chamadas "mídias essenciais": jornais, revistas, TVs e plataformas digitais ligadas a marcas de credibilidade. O crescimento das assinaturas digitais é um exemplo do fenômeno.

Qual a missão da ANJ, neste cenário?

Rech - Uma das missões urgentes é demonstrar que o produto do futuro se chama confiança e que ela é essencial para nossa sociedade.  Em um cenário de desconfiança e ceticismo generalizados, conteúdo confiável exerce um papel crucial. E é exatamente esse produto escasso - confiança nas informações - que os jornais transferem para o público a todo instante. Além disso, os jornais, com sua pluralidade de opiniões, quebram o ciclo de bolhas opinativas e infinitos likes no mesmo tipo de opinião a que se assiste nas redes sociais. Os jornais trazem confiabilidade, diversidade e convivência respeitosa de opiniões distintas - coisas de que o Brasil e o mundo precisam muito. Essa missão, contudo, só pode ser empreendida em um cenário de ampla liberdade de expressão e de proteção à atividade jornalística. Infelizmente, ainda vemos muitas ameaças, de legislações restritivas a agressões físicas, que conspiram contra a ampla liberdade garantida na Constituição. A ANJ, juntamente com outras associações da comunicação, está sempre alerta contra essas intimidações.

Como têm sido os primeiros meses do seu mandato à frente da entidade e quais os seus planos para 2017?

Rech - Tem sido muito gratificante constatar como os jornais, de Norte a Sul, exercem um papel único na sociedade e nas comunidades, por vezes com grandes sacrifício e lutando contra dificuldades e pressões. Jornais têm uma missão social e exercem um papel fundamental nas comunidades. Os do Brasil são muito qualificados e respeitados internacionalmente, graças ao trabalho de gerações e a um espírito de inquietação permanente que leva a constantes renovações e ampliação do alcance de seus conteúdos editoriais e publicitários. Para 2017, a ANJ se foca em três grandes frentes: a difusão de melhores práticas por meio de seminários e palestras digitais para seus associados, a conscientização de que a credibilidade dos jornais atrai confiança para as marcas que estão presentes neles e na percepção de que a audiência dos jornais, física e digital, não só é muito expressiva mas altamente valorizada. Além disso, como é a essência da associação, mantemos uma atuação constante na defesa da liberdade de expressão plena, da individual à comercial. 

Qual é, na sua visão, o tipo de conteúdo jornalístico que melhor funciona no impresso e o que melhor funciona no digital?

Rech - O meio digital se destinava a notícias rápidas e de última hora, enquanto o papel era reservado para conteúdos mais extensos e profundos. Essas barreiras - pelo menos no caso dos jornais - estão caindo. Como jornais produzem conteúdo diferenciado e qualificado, a tendência é de que, já nas notícias online, se acrescente abordagens e conteúdos exclusivos, de modo a valorizar os assinantes. A tendência - quando se trata de conteúdos pagos - é de aproximar os conteúdos de diferentes plataformas pensando no assinante, que usa o meio que lhe é mais conveniente de acordo com sua rotina. No caso de conteúdos gratuitos, há uma tendência a certa comoditização  - o segundo tuíte sobre um mesmo fato, por exemplo, não tem impacto. O valor das marcas de credibilidade, nesse caso de notícias instantâneas de conhecimento geral, estará em confirmar a informação, repor a verdade e acrescentar abordagens inéditas.