Tempos de resgate


Por Stalimir Vieira, Coordenador de Cursos e Seminários da Abap 

Houve um tempo em que anunciar era um processo tão complexo que, sem ajuda profissional, ninguém fazia nada que prestasse. Era necessário ter conhecimentos de fotografia, fotocomposição, fotolito, gigantografia, filmes em película, revelação em laboratório, iluminação, captação de som, enfim, uma parafernália dos diabos que só os iniciados eram capazes de dominar.

Mesmo assim, havia anunciantes que se aventuravam sozinhos e o resultado era sempre um desastre para a marca. E esses desastres acabavam ilustrando os argumentos que nós, publicitários, expúnhamos aos nossos prospects, reforçando a tese de que eles precisavam de nós. Assim, a percepção em torno da indispensabilidade do nosso trabalho cresceu.

Com a evolução da tecnologia, os processos foram se tornando cada vez mais simples e acessíveis aos leigos. Já faz alguns anos, na prática, qualquer um que disponha de um celular pode se tornar anunciante em fração de segundo. Essa possibilidade provocou uma corrida desenfreada à autossuficiência. Marketing e publicidade se tornaram banalidades como levantar a porta do negócio de manhã e baixar no final do dia. As agências amargaram sérios prejuízos com essa descoberta generalizada de que não faziam mais falta. Os clientes começaram a ficar incomodados em pagar por aquilo que outros, aparentemente, obtinham de graça. Perdeu-se receita importante e o que é pior: uma nova geração de empreendedores já nasceu “consciente” da nossa provável dispensabilidade.

Todavia, como não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe, o tempo vai, aos poucos, recolocando as coisas no seu devido lugar. Depois de muitas cabeçadas, o mercado anunciante vai recuperando a consciência de que, mais complexas ou mais simples, as ferramentas apenas trocaram de nome, mas continuam, para serem eficazes, de um combustível chamado ideia.

Recentemente, recebi a visita de dois jovens paraenses que vieram fazer uma pós-graduação em São Paulo. Do alto de seus vinte e três anos, me deram um aula de marketing digital. Curioso e, confesso, já um tanto angustiado com tanta informação técnica, fiz uma pergunta, cuja reposta eu pretendia me desse a esperança de ainda aprender pelo menos uma coisa na vida: meus queridos, de tudo isso que vocês me falaram, o que é o mais importante? E eles, em coro: o conteúdo.

Lá no início dos anos oitenta, nenhum grande figurão da direção de arte conseguia desenhar uma linha reta sem um japonesinho discreto a seu lado, tentando ensiná-lo a transformar o que ele passou a vida fazendo em papel, em linguagem eletrônica. Assim, as ideias ganharam um aliado importante na tecnologia e a qualidade do acabamento dos produtos criativos aumentou muito. Sem falar, nos ganhos em velocidade e produtividade. Claro que alguns anunciantes também compraram computadores e mandaram instalar neles algum corel draw da vida. Mas, com o tempo, perceberam que a iniciativa se tornava inútil sem alguém do ramo na frente da máquina.  O que ficava caro.

Enfim, estou muito otimista no resgate completo do significado e da indispensabilidade do trabalho dos publicitários. É apenas uma questão de paciência e perseverança. Basta ver o sucesso que as agências que restabeleceram o valor do conteúdo em seus discursos estão obtendo.