O que precisamos aprender sobre os fakes


Por Alexandre Secco, Presidente da Medialogue Digital 

A fotografia de uma menina de nove anos com o corpo queimado por napalm, feita no Vietnã em 1972, ganhou capas de jornais no mundo inteiro, serviu um pedaço da guerra no café da manhã de milhões de pessoas e despertou para uma tragédia. De certa forma, a imagem da pequena Phan Thi, capturada pelo fotógrafo Nick Ut, influenciou o rumo da história. No ano passado, a foto voltou para os jornais, dessa vez por ter sido censurada pelos algoritmos do Facebook, que classificaram a imagem da menina nua como uma afronta aos padrões morais da rede. Não foi uma novidade. No Facebook, páginas sobre aleitamento materno e referências ao uso terapêutico da maconha também costumam ser censuradas por supostas imoralidades. Uma dessas ironias da era digital.

O debate sobre o que pode e o que não pode na internet está quente. Mark Zuckerberg, que veta o registro histórico de uma vítima da guerra, foi cobrado pela enxurrada de notícias falsas que circularam livremente em sua rede durante as eleições presidenciais americanas. Depois de colocar panos quentes, dias atrás ele assumiu em tom messiânico o compromisso de empenhar todos os esforços para suprimir as mentiras do Facebook. Uau!

É nesse ponto que os fakes de Donald Trump e Hillary Clinton encontram a foto de Phan Thi. Já sabemos que algoritmos ainda não sabem distinguir pornografia de um registro jornalístico. A grande questão é: a sociedade precisa de um messias encarregado de protegê-la da mentira, ou melhor, daquilo que classifica de mentira?

O compromisso de Zuckberg parece até muito pertinente. Um dos líderes na disputa presidencial na França Emmanuel Macron tem passado um bom tempo de sua campanha desmentindo notícias falsas que circulam pelas redes sociais. Ele, que vive casado com sua companheira há dez anos, é acusado de omitir um relacionamento extraconjugal que teria com um homem. Nos Estados Unidos, apoiadores da democrata Hillary Clinton, afirmam que sua candidatura foi abalada por notícias falsas acusando-a, entre outras coisas, de vender armas para os extremistas do Estado Islâmico. No Reino Unido, analistas sugerem que as mentiras foram decisivas no voto dos britânicos pela saída do país da União Europeia, especialmente as que falavam de uma possível abertura das fronteiras do país aos imigrantes, no caso de permanência. Ou seja, aparentemente, o rumo da história agora estaria sob forte influência de fakes ­– e não de registros pungentes como o da menina vietnamita.

O problema é que, apesar das especulações, ninguém sabe como os fakes realmente mexem com a cabeça das pessoas. Em um primeiro estudo sobre o assunto, os economistas Matthew Gentzkow de Stanford e Hunt Allcott da New York University, concluíram que as redes sociais tiveram um papel muito menor do que o que se imagina no resultado da eleição americana. “Baseado nos fatos que estudamos, pode-se dizer que as notícias fakes não definiram a eleição”, disse Gentzkow. Só um detalhe: apesar de não ser conclusivo, evidentemente, o estudo com resultado negativo ganhou muito menos repercussão do que as versões positivas sobre a influência dos fakes.

Até agora não apareceram indícios de que os americanos que compartilharam notícias fakes sobre Hillary Clinton acreditavam piamente nelas. Parece uma boa hipótese admitir que elas apenas queriam dizer que não acreditavam em Hillary — pouco importa o que se falava sobre ela. Da mesma forma que os eleitores do palhaço Tiririca, no fundo, desejavam mostrar sua insatisfação com a política e não seu apreço pelas propostas do palhaço candidato. Nesse sentido, quem se alista nas redes de distribuições de fakes estaria dando apoio a um movimento e não sua chancela a uma mentira. A pesquisa dos professores Gentzkow e Allcott mostrou que apenas 14% das pessoas apontaram o Facebook e as demais redes sociais na lista das fontes de informação que julgavam confiáveis sobre a campanha eleitoral americana.

Outro detalhe interessante diz respeito a origem desses fakes. Durante a eleição americana descobriu-se que muitos deles eram produzidos em “oficinas”, com fins essencialmente comerciais. Em uma cidade de 45 mil habitantes, em Veles, na Macedônia, foram encontrados 150 domínios usados em canais fakes pró-Donald Trump. Eles geravam milhões de views e faturavam de 3 mil dólares a 40 mil dólares por mês em publicidade, cada um. De certa forma, há algo de genial nisso. Usando um recurso abundante — as mentiras e as promessas—, conseguiram fazer versões irresistíveis, que fisgam clicks e se espalham mais rápido do que os relatos originais. É preciso talento para fazer isso. Aqui mesmo no Brasil, durante as eleições de 2014, foi investigada uma rede de sites de notícias falsas baseados na cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais. Nesses casos, a produção de mentira tem pouco a ver com ideologia e tudo com dinheiro, não estamos falando de mentiras, ou de verdades, apenas de produtos.

Em resumo, os indícios disponíveis sugerem que tanto os consumidores como os fabricantes de fakes sabem muito bem o que estão fazendo. Antes de ajustar seus filtros, Mark Zuckerberg deveria estudar um pouco mais o assunto.