"Aprender é a maior diversão da vida"


Dalton Pastore, Presidente da Escola Superior de Propaganda e Marketing

Por Claudia Penteado

Como uma instituição de ensino tradicional,  voltada para a indústria da comunicação, lida com a velocidade das transformações dos setores ligados a ela e com o desafio de preparar jovens para um mercado de trabalho que dá apenas pistas das profissões que ainda vêm por aí? E como lidar com o fato de que o timing do mundo acadêmico costuma ser (muito) diferente do timing do mundo das empresas, no qual Dalton Pastore, hoje presidente da ESPM, nadou de braçada durante mais de 30 anos? Habituado a desafios, Dalton reafirma a inabalável meta de ser a melhor escola do mundo em suas áreas de atuação. E como não há fórmulas prontas ou modelos ideais a seguir, então o jeito é manter-se atento e inovar: a ESPM acaba de inaugurar, em São Paulo, o campus ESPM Tech. Sobre esta e outras novidades, Dalton fala neste bate-papo.

O relatório Futuro do Trabalho, do Fórum Econômico Mundial, diz que 65% das crianças que estão no ensino fundamental devem trabalhar em empregos que ainda não existem. Como lidar com essa previsão - a de que ainda sequer sabemos as profissões que vêm por aí? Como preparar alunos para um ambiente profissional que reserva surpresas e pode se transformar tanto, de uma hora para a outra?

Nós estamos vivendo hoje aquela que será, provavelmente, a maior revolução já vivida pela humanidade. Ouço comparações com a revolução industrial, mas essa, do século XIX, substituiu operações mecânicas. A de agora será muito mais intensa na medida em que se propõe a substituir funções de inteligência.

Os humanos terão de competir com a inteligência artificial que logo irá se tornar mais poderosa e mais precisa. Nosso porto seguro estará nas ciências humanas e na criatividade. Sobretudo na criatividade. Os alunos da ESPM estarão bem preparados.

Como é para uma instituição tão tradicional lidar com essa velocidade das demandas, uma vez que as universidades sempre lidaram com profissões estáveis? O "Campus de Tecnologia" é uma resposta a isso?

Preciso admitir que o timing no ensino superior é diferente do timing das empresas. Tradição no ensino superior é uma qualidade de muito grande valor. Nosso compromisso com nossos alunos e com suas famílias é imenso e não comparável ao de nenhum outro setor. As famílias nos confiam o que têm de mais valioso: o futuro de seus filhos. Nós não oferecemos cursos, nós oferecemos o milagre da educação, que tem o poder de proporcionar crescimento ao indivíduo e ao profissional.

Tudo o que nós fazemos parte da certeza desta responsabilidade. Tecnologia é um meio. É o meio que as pessoas precisam dominar para entrar no jogo hoje.

Que adaptações e  reformas vêm sendo feitas para transformar os espaços para os alunos? O modelo de sala de aula ainda replica o modelo educacional do século 19. Isso acaba? Muda de vez?

Nós estamos focados em criar para os nossos estudantes, tanto em graduação quanto em pós, ambientes que os estimulem a trabalhar em conjunto, a aprender com seus pares, a desenvolver network e que os mantenham mais tempo no campus. Do ponto de vista do ensino, os novos ambientes favorecem as metodologias ativas. Temos construído muitas salas novas e inovadoras, o que é muito importante na medida em que estimulam ensino e aprendizado, professores e alunos. E aumentam, se é que isso é possível, o orgulho de ambos por ser ESPM.

Como vem se transformando a maneira de ensinar e a maneira de aprender numa universidade, uma vez que as novas gerações nascem conectadas e se habituaram a buscar informações em um clique?

A mudança está apenas começando, o grosso ainda nem começou. Porém, estamos seguros de que acesso à informação é apenas uma parte do aprendizado. E não é a parte mais importante.

Neste sentido, a internet se transformou em um concorrente importante para as universidades?

A internet está substituindo ou pelo menos concorrendo com negócios, empresas, instituições e o ensino não é exceção. Ignorar este fato não faz bem à saúde. Mas disponibilizar a informação não é o mesmo que ensinar e receber a informação não é o mesmo que aprender.

Como você encara o ensino a distância?

O EAD é um meio que pode ser fantasticamente eficiente para levar conhecimento a quem vive longe do campus ou não tem disponibilidade de tempo, mas é um erro tratar o EAD como uma forma de ensino de segunda classe. Oferecer um bom curso em EAD custa o mesmo que oferecê-lo presencialmente.

No Brasil, nossos critérios de valor ainda lembram o tempo em que trocávamos ouro por espelhinhos. Fazemos fila para pagar R$ 8 mil por um novo celular, mas achamos muito caro o ensino de uma faculdade de excelência.  

Como o ensino também vem sendo ajustado, especialmente o de propaganda, para além das reformas físicas?

Nossos estudantes de marketing e propaganda continuam recebendo todos os conteúdos clássicos fundamentais e sempre renovados. O digital ocupa um espaço importante. As novas tecnologias também. A ESPM continua sendo uma escola referência no mundo nestes campos. Temos estrutura e competências para estimular nossos estudantes a trabalhar em equipe nas diversas agências e laboratórios que a escola mantém.

O índice de empregabilidade de nossos alunos cursando ainda o sétimo período supera os 85%, o que é fenomenal. O marketing e a publicidade nunca foram tão fundamentais, nem tão complexos. Temos plena consciência destes dois fatos e eles estão refletidos em nosso programa acadêmico.

Como atrair as novas gerações e propor a elas uma nova experiência de ensino, que as mantenha motivadas?

Há quem advogue que, em um mundo tão veloz como o que estamos experimentando, o ensino superior deveria ser mais breve. Eu penso o contrário. As pessoas estão vivendo mais, podem e devem investir mais tempo em educação.

Aprender é a maior diversão da vida. A escola precisa saber orientar, fazer a curadoria, criar clima e condições para o aprendizado e não atrapalhar.

Que universidades têm inspirado você e a sua equipe nesses movimentos?

Eu gostaria de ter encontrado uma escola para copiar. Eu não tenho nada contra copiar. Mas o fato é que, infelizmente, não encontramos um pacote pronto. As universidades dos Estados Unidos são sempre boas fontes de inspiração, bem como algumas iniciativas ocorridas na Finlândia. Nós nos servimos, aprendemos e continuamos aprendendo com ambos. Do ponto de vista do ensino, a metodologia Montessori, criada pela educadora Maria Montessori, que morreu em 1952, está agora se tornando cada vez mais moderna.

Que balanço você faz da sua gestão na ESPM, desde que entrou?

Desde o início decidi dirigir minha gestão obsessivamente a dois objetivos: excelência e perenidade. Queremos que a ESPM seja a melhor escola do mundo em suas áreas de atuação e queremos isso para sempre. Sei que isso não é pouca coisa, mas somos a ESPM.

Como a filosofia da ESPM se transformou ao longo do tempo - há valores que não mudam jamais ou nesta área é preciso mudar e não olhar para trás?

A ESPM foi criada por um grupo de visionários conectados com o futuro, movidos pela paixão por excelência, conscientes do poder da educação de qualidade. O sucesso da ESPM não é fruto do acaso. Minha responsabilidade é potencializada pelo ideal de nossos fundadores e pelo trabalho dos cinco presidentes que me antecederam e que construíram nossos valores, os quais não mudarão jamais.

Você tem salas que gostaria de ver patrocinadas. Como funciona este patrocínio?

Já fechamos alguns patrocínios. O importante é ressaltar que os patrocínios são inteiramente dedicados ao nosso Fundo de Bolsas. Nós queremos dinheiro apenas para o Fundo de Bolsas. Apenas para atrair e manter na escola meninos e meninas que irão fazer a diferença no Brasil.

Assim como nascem no Brasil talentos do futebol,também nascem fenômenos da inteligência. Só que para estes não há olheiros, não há empresários, não há patrocínios. Estes talentos, nós, ignorantes que somos, ignoramos. Nenhum país jamais se tornou desenvolvido desperdiçando inteligência.

Que novos cursos a Escola lançou nos últimos tempos e o que vem de novidade por aí este ano?

Nossos cursos foram sempre e continuam sendo inovadores na essência.  Nosso curso de Relações Internacionais é o único do país com foco no corporativo. Estamos formando o diplomata corporativo.

Nosso curso de Ciências Sociais está dirigido ao consumo. Formamos o cientista social do consumo.

Nosso Tech soma programação com marketing e negócios. A mesma combinação de conhecimentos e habilidades que criou as maiores empresas do mundo de hoje. O que surge de novo, surge antes na ESPM.

Você tem saudades de trabalhar em agência de propaganda?

Eu trabalhei muitos anos em agência. Fui redator na Santos&Santos, Fator, Propeg e Artplan por oito anos. Vivi 15 na Ogilvy e 12 na Carillo Pastore. Sempre trabalhei muito e muito feliz. Mas também estou muito feliz com esta missão na ESPM. Eu gosto de trabalhar.

Qual a sua visão deste mercado hoje, e para onde ele caminha? Que grandes desafios enfrenta?

O único grande desafio da indústria da comunicação é encontrar um novo modelo de negócio. Aquele que existia e que fez o sucesso de empresas, marcas, meios e agências infelizmente não está mais funcionando.

Que tipo de empresa de publicidade e de anunciante você e a ESPM imaginam quando preparam seus alunos para ingressarem neste mercado? Que perfil de profissionais vocês gostariam de ajudar a criar?

Queremos formar profissionais com uma base mais larga de ciências humanas, que estejam aptos a trabalhar em equipe, que fiquem confortáveis em desenvolver projetos e resolver problemas junto com pessoas de outras formações, que dominem as possibilidades e os recursos da tecnologia e que estejam decididos a nunca parar de aprender.