"A criatividade tem o poder de mover a cultura e a sociedade"


Marcia Esteves, Presidente da Grey

Por Claudia Penteado

Marcia Esteves assumiu a presidência da Grey para a América Latina e se tornou uma das poucas mulheres a ocupar o cargo de presidente em uma agência de publicidade no país - e a primeira na história da Grey América Latina. Mas ela prefere não falar (muito) sobre isso. Torce para que o mundo e a sociedade evoluam a ponto deste não ser mais um foco para debates. Para ela, há pessoas e não cores, gêneros, crenças. As oportunidades, por isso, devem ser iguais para todos, sem privilégios para esta ou aquela minoria. Neste bate-papo com a Abap, ela fala da Grey, claro, e também do que a encanta na propaganda e - sem qualquer exercício de futurologia - do futuro do negócio.

Ser mulher na presidência de uma agência de publicidade. Ainda precisamos falar sobre isso? Ou precisamos deixar de falar especificamente sobre isso?

É uma pergunta que tenho feito desde que a posição foi anunciada. Por mim, o fato de ser mulher não seria pauta ou teria qualquer outro interesse que não fosse a alteração do cargo no meu cartão de visitas. Mas o fato é que ser mulher, com esse cargo, tem despertado a atenção: seja porque realmente não há muitas mulheres no comando, seja porque ser mulher e o nosso papel na sociedade têm sido objeto de muita reflexão. Acho que entre uma coisa e outra, podemos falar sobre isso mais um pouco, até que o tempo avance e mais mulheres ocupem o cargo – isso vai acontecer mais dia, menos dia, por uma consequência do tempo, do mercado e do desenvolvimento da sociedade.

Você se preocupa com as oportunidades de crescimento de mulheres dentro da Grey? A agência tem programas ou projetos voltados para isso?

Eu me preocupo com pessoas, independentemente de credo, religião ou sexo. E em permitir que as pessoas se desenvolvam por mérito, criando condições para isso. E é isso o que fazemos na Grey: criamos condições e damos espaço para que mulheres se desenvolvam (assim como todos), em busca de uma empresa cada vez mais complementar.

E sobre diversidade: como você se preocupa com oportunidades para minorias de uma maneira geral dentro do ambiente da agência?

Vejo pessoas, não classificações. Vejo caráter, não cor. Vejo responsabilidade, vontade e garra, e não orientação sexual. Somos todos gente. E quanto mais colaborativos e diversos formos, melhores seremos.

Que tipo de líder é você?

Eu não sei. Quem pode responder essa questão são aqueles que me consideram “líder”. Eu só tento ser uma pessoa justa, coerente e íntegra.

O que ainda encanta você na propaganda?

Absolutamente tudo. Propaganda é comunicação. Comunicação é o que nos faz “homo sapiens” e me faz crescer e entender melhor o mundo que se transforma todos os dias.

Você planejava, de alguma forma, se tornar presidente de uma agência? Buscou isso na sua carreira?

Eu sempre quis transformar o mundo. Torná-lo melhor, mais justo para todos. Esta posição é uma das formas possíveis para fazer isso mais rápido, transformando a vida das pessoas ao meu redor e participando de forma ativa das transformações necessárias na indústria da comunicação.

E  o que esperar do futuro? Como você enxerga o papel das agências e para onde caminha o negócio?

As agências e as marcas têm e sempre terão um papel absolutamente relevante na sociedade e na vida das pessoas. O futuro tem tantas variáveis que qualquer afirmação é só uma crença abstrata de alguma coisa que eu gostaria que acontecesse. A gente vai se reinventar, se transformar, melhorar. É disso que se trata a vida, seja de uma pessoa física ou de uma pessoa jurídica. 

A Grey teve um ano fantástico em 2017. Como explicar a excelente performance em um ano que a maioria no mercado prefere esquecer?

A Grey é formada por um grupo de pessoas remando para a mesma direção, com um propósito claro e um projeto compartilhado com todos e por todos. Isso é a base que sustenta tudo, dando consistência no discurso e o tornando realidade. Além de trabalho duro e, claro, parceria e reconhecimento dos nossos clientes.

Qual o posicionamento da Grey hoje no mercado, qual a sua promessa, a sua entrega única, o seu projeto de Brasil?

A Grey é uma coalisão ambiciosa de 150 pessoas em uma missão: transformar a indústria de comunicação e aportar valor ao negócio dos nossos clientes, inserindo as nossas marcas na vida das pessoas, através de ideias culturalmente relevantes. A Grey é uma agência íntegra e transparente – isso significa que eu vou entregar o que eu prometi, que vou cobrar da minha equipe e clientes o que foi combinado. As portas são abertas, os feedbacks são bem-vindos e o combinado deve ser cumprido.  Até 2020 a Grey estará entre as TOP10 do mercado brasileiro:  em tamanho, rentabilidade e reputação, preservando a nossa cultura, que tem como premissa clientes satisfeitos e colaboradores felizes.

Existe um modelo novo - que combina, de fato, consultoria e todo o know-how de branding e a criatividade que as agências sempre tiveram? Como você enxerga novos modelos que vêm surgindo e em que medida têm procurado adaptar a agência

Acredito que todos estão buscando um caminho diferente para reagir ao momento que vivemos: revolução tecnológica (diária), crise financeira e governamental. Esse combo gera instabilidade e faz com que todas as indústrias busquem novos modelos para sobreviver, perdendo foco e valor. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva demonstrou que os brasileiros consideram que as marcas e produtos são mais importantes para definir suas identidades do que o bairro onde moram ou o time pelo qual torcem. E que 7 em cada 10 brasileiros afirmam que propagandas são ótimas fonte de informação.

Dados como estes reforçam o que acreditamos: a criatividade tem o poder de mover a cultura e a sociedade. O que precisamos somente é ajustar o modelo de negócio na medida em que a sociedade se transforma. Agindo e não reagindo. Fazendo as perguntas certas e estruturando as transformações necessárias, respeitando o valor da nossa indústria e com foco no negócio - e não agindo em “ondas” e de forma pendular e pontual.