"É preciso evoluir"


Gabriel Queiroz, CEO da BBI.Solutions

Por Claudia Penteado

Esta semana o presidente Michel Temer sancionou a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, que estabelece os parâmetros para a coleta, armazenamento e uso de dados das pessoas e impacta fortemente a nossa indústria, certamente uma das que mais se valem, hoje, de dados para desenvolver suas estratégias de mercado. Neste papo, Gabriel Queiroz CEO da BBI.Solutions, dá seu ponto de vista a respeito do tema. Para ele, um dos pontos positivos é que algumas ideias que antes seriam barradas por um eventual risco na coleta dos dados, podem agora ser amparadas pela lei, uma tranquilidade jurídica que faltava em todo o processo.

Qual a sua visão da lei geral que foi sancionada pela presidência?

Muito positiva. Um avanço, um passo inicial para o mercado brasileiro, que precisava de parâmetros para definir o que se pode e o que não se pode fazer com dados pessoais e de que forma deve coletar tais dados.

Que elementos são positivos para o mercado de publicidade, em especial?

Agora que existe uma lei, que determina o que é certo ou errado na coleta e trato dos dados, a lei, em especial, alerta e pede o consentimento das pessoas e informando claramente para que aqueles dados recolhidos serão utilizados, inclusive há um trecho da lei que garante que somente os dados realmente necessários para que os sistemas funcionem sejam coletados. Isso garante à população uma confiança, permitindo até que alguns dados que antes as pessoas tinham receio em divulgar, sejam divulgados, pois segundo a lei, existe uma penalidade para quem descumprir o combinado. A publicidade pode se beneficiar com isso, ampliando a quantidade e a qualidade dos dados coletados.

O que muda no dia a dia das agências?

O que era obscuro e, por muitas vezes, barrado por departamentos jurídicos das agências, agora tem parâmetro. Algumas ideias que antes seriam barradas por um eventual risco na coleta dos dados, podem agora ser amparados pela lei e se o usuário concordar e o dado for relacionado com o ambiente que está sendo solicitado, gera uma tranquilidade jurídica, pois a lei vale para todos, para quem coleta e para quem dá o consentimento.

Um alerta apenas é entender se realmente as agências estão preparadas para lidar com esta nova realidade e, principalmente, se sabem os caminhos para coletarem, armazenar e tratar os seus dados com segurança. No meu ponto de vista, de um fornecedor onde dados é o core do negócio, estas atividades estão bem claras, basta saber se as agências possuem tecnologia e real entendimento do que estarão coletando.

Fornecedores em geral, incluindo agências, estão preparados para a Lei ou falta muito?

É preciso evoluir. A boa notícia é que segurança e transparência com dados é parte imprescindível do sucesso do business intelligence, portanto, entendo que se as agências realmente olharem com o carinho que esta nova fonte de receita merece, a parte de proteção estará embarcada no processo.

Proteção de dados é um hábito que cada indivíduo deve começar a ter? Como fazer isso se os jovens parecem menos preocupados e as novas gerações tendem a não ser tão cuidadosas com seus dados?

Na prática, os seus dados não estão expostos para qualquer um sem o seu consentimento. O que acontece é que hoje as empresas até avisam, mas de forma chata e burocrática por meio de termos de privacidade extensos e cheios de conceitos jurídicos quais dados estão coletando, inclusive coletando mais até o que deveriam, e ninguém tem a paciência de ler estes termos. Talvez agora, com a exposição que esta lei vem tendo e com a necessidade de deixar mais claro o que será coletado e para que será coletado, as pessoas passem a concordar ou não em conceder tais dados. Vai gerar uma maior consciência, mas claro que ainda existirão aqueles que aceitarão os termos, mesmo que simples de se ler e entender, sem a devida atenção.

Dê exemplos práticos de como esta lei vai impactar os processos na agência

Hoje, entendo que as agências em si, coletam poucos dados por conta própria. Elas utilizam mais fornecedores que fazem este trabalho para elas. Basta verificar com tais fornecedores se a lei está sendo seguida. Haverá uma melhoria no serviço, deixando apenas aqueles que realmente estão preparados para tratar dados com privacidade e segurança. As agências devem exigir isso de todos estes fornecedores. Exigir que a lei seja cumprida e simplesmente parar de fazer negócios com aqueles que não cumprirem as normas. Desta forma estarão protegidas.

O que muda para empresas com o seu perfil, já focadas em dados? 

Falando do meu lado de empresa que tem no core os dados, as normas propostas pela lei já estão implementadas, pois devido a legislação europeia, a GDPR, nós passamos por uma transformação para se adequar a ela, pois diferentemente da lei brasileira, a GDPR diz que mesmo as empresas estrangeiras que tratarem dados de cidadãos europeus, devem se adequar a lei. Como a internet não tem fronteiras, resolvemos nos adequar a lei pois, eventualmente, poderemos ter que coletar dados pessoais de cidadãos europeus, portanto devemos seguir a GDPR. Como a lei brasileira foi muito inspirada na lei europeia, as adequações serão mínimas, se houver. Lembro ainda que as empresas têm um prazo de 18 meses para se adequarem às novas normas.

Há cobranças fortes dos anunciantes em concorrências, por exemplo, com relação a dados?

Constantemente somos procurados por agências para participarmos em conjunto, por meio da transferência da nossa inteligência de dados, em concorrências. Então a resposta é sim, os anunciantes demandam dados. Agora a questão é se estão de fato preocupados com a privacidade e com a forma que estes dados são coletados. Entendo que existam empresas em diversos estágios no Brasil quando o assunto é dados. Algumas mais evoluídas e muito preocupadas com segurança e privacidade, outras menos.

Quais as maiores fontes de preocupação e problemas quando o assunto é dados em publicidade?

Entendo que hoje a maior preocupação é como coletar, armazenar e tratar um volume gigantesco de dados relacionados a publicidade. A preocupação com privacidade e segurança existe, mas está embarcada em um problema maior, que é o como fazer um business intelligence efetivo. É preciso de um amadurecimento do mercado para entender realmente como os dados são fonte de receita, passando obviamente pela segurança e privacidade.