Contra notícias falsas, a liberdade


Por Patricia Blanco, Presidente do Instituto Palavra Aberta

Quem não se lembra da notícia da morte do doleiro Alberto Youssef, principal delator da Operação Lava Jato, na cela da Polícia Federal em Curitiba? Era falsa, mas mesmo assim foi replicada nas redes sociais e criou muita dor de cabeça. Como a morte do doleiro e tantas outras, as falsas notícias se incorporam ao dia a dia da Internet e, assim, permanecerão enquanto as pessoas não criarem o saudável hábito de checar as informações antes de curti-las ou compartilhá-las. Ou ainda, que os usuários das redes passem a criar notícias tendo o indispensável zelo ético pela veracidade dos acontecimentos.

O que diferencia as notícias nas redes sociais para as notícias da grande imprensa é um princípio simples: a filtragem. Como o jornal publica fatos, não ficção, e perde sua credibilidade sempre que fizer diferente, o cuidado com a verdade é objetivo e real. É assim desde os idos de Gutemberg e perpassa a história social da mídia, claro que com altos e baixos, mas a linha dominante é a verdade factual.

Nas redes, ao contrário, cada um diz o que quer, o indivíduo passa a ser editor do seu próprio jornal e a verdade, muitas vezes, como disse Nietzsche, passa a ser apenas um ponto de vista sobre a mentira, isto é, sem o amparo dos fatos.

Sendo assim, tudo fica muito volátil, muito instável, a exigir permanente atenção. É uma situação paradoxal: ao mesmo tempo em que a Internet deu uma nova dimensão à liberdade de expressão, liberando voz e acesso ao conhecimento de milhões e milhões de pessoas, o que é um avanço colossal, por outro lado, as notícias falsas põem em risco a reputação e a idoneidade das empresas, governantes e pessoas comuns, além da disseminação do discurso de ódio, da intolerância e dos preconceitos.

O que fazer? Seguir o caminho das multas pesadas para as notícias falsas, deixar que as notícias verdadeiras expulsem as falsas ou não fazer nada e simplesmente deixar que as redes sociais se autorregulem? São caminhos que precisam ser discutidos e avaliados. Mas uma coisa é certa, a Internet e as redes sociais são a grande ágora moderna e, como na antiga Grécia, servem para o exercício da democracia, só que exponencialmente ampliada.

Portanto, nada do que for feito deve restringir a liberdade de expressão. Pelo contrário, a liberdade deve ser ampliada. Quanto mais ampla, mais vigorosamente irá repudiar os excessos e as mentiras.

Na verdade, o que se assiste hoje no mundo virtual já existia antes no mundo real, sob o manto, por exemplo, da chamada imprensa marrom. Quem ainda lembra? Vivia de mercadejar falsos escândalos ou versões distorcidas dos fatos. Mentiras, mesmo.

Em outras palavras, em tempos de pós-verdade, com seu desdém pela realidade dos fatos, não há porque imaginar a superioridade do mundo real sobre o virtual e vice-versa. O que é preciso é pensar no aprimoramento ético do homem e sua reponsabilidade. A notícia divulgada sem os necessários cuidados carece do espírito humanitário. E sem isso não há comunicação que resista. Não constrói, não produz credibilidade, e, portanto, não inspira confiança.