Lições de um guru contemporâneo


Por Armando Strozenberg, Presidente Nacional da Abap

Uma das primeiras grandes perdas de 2017 foi o nosso mais instigante guru contemporâneo, Zygmunt Bauman, o polonês que aos 91 anos ainda pensava ativamente as relações humanas no mundo atual, valendo-se de um dos conceitos mais potentes jamais criados: o dos tempos líquidos que vivemos. Poucos conceitos definem mais ou melhor as relações, valores e identidades do que este cunhado pelo sociólogo nos anos 90 - claramente inspirado na frase de Marx "tudo o que é sólido se desmancha no ar". 

Bauman parecia, com o passar do tempo, cada vez mais perplexo com as peculiaridades do mundo virtual obcecado por tecnologia: as centenas de amigos nas redes, os limites cada vez mais tênues entre horário de trabalho e tempo pessoal, a fragilidade das relações sociais e de amizade.

O que aprendemos com Bauman? Certamente aprendemos a nos escandalizar pelo menos um pouco com o cenário ao nosso redor, que sob sua ótica sempre perspicaz era repleto de insensatezas - como o conceito de redes, no lugar dos laços humanos e comunidades, por exemplo. Bauman costumava dizer que as pessoas sempre nasceram em comunidades,  mas hoje em dia entram e saem de redes com a facilidade do clique em um botão. A facilidade da desconexão entre as pessoas passou a permear a sociedade e tornou-se a base do olhar crítico de Bauman, chamando a atenção para movimentos que se tornaram automáticos, frugais, superficiais. Tudo se tornou previsivelmente temporário.

Nos transformamos numa multidão de pessoas solitárias, distanciadas de dois valores que ele considerava essenciais para uma vida feliz: segurança e liberdade.

Bauman teve a globalização como um dos seus temas prediletos, e com ela o aumento da desigualdade e a orgia consumista que, entre outras coisas, arrastou a classe média - a mais bem sucedida e confiante da sociedade - à precariedade, algo semelhante ao antigo proletariado. O conflito deixou de ser entre classes, e passou a ser de cada indivíduo com a sociedade. Tudo se resume aos 1% que estão no topo e os 99% do resto da sociedade.

Um dos conceitos de Bauman que mais gosto é o do interregno - termo que ele gostava de usar para definir essa espécie de limbo e momento transitório da sociedade, em que tudo o que foi aprendido até aqui parece não mais funcionar diante dos desafios que se apresentam. Isso vale para o sistema político, para a organização da vida de uma maneira geral, para os relacionamentos interpessoais, para todas as formas aprendidas de sobrevivência no mundo. E as novas formas, quando existem, ainda engatinham. Quem não tem tido essa sensação, nos últimos anos,  na nossa indústria?  Como lidar? O que se vê são mais reações a crises, que por sua vez também são líquidas, e mudam o tempo todo.

Bauman considerava uma das feridas mais dolorosas da atualidade o fato de estarmos nos afogando em informações e famintos por sabedoria, frase emprestada do biólogo E. O. Wilson. Nos falta sabedoria para seguir em frente. É o que buscamos, todos. Pena não podermos mais continuar, daqui pra diante, contando com (novas) ideias de Bauman para enfrenter esse interregno que parece não ter fim.

Que os deuses ajudem, os publicitários inclusive, a não perder de vista a capacidade de nos assombrarmos com a realidade e jamais abrir mão da capacidade de pensá-la.