"Somos especialistas em conexões culturais valiosas e duradouras"


Gal Barradas, Sócia e co-CEO da BETC/Havas e Vice-Presidente da Abap Nacional

Por Claudia Penteado

As abelhas possuem cinco olhos que amplificam a consciência de tudo que ocorre ao seu redor. Ao transportar pólen, transportam e produzem informação. Ou seja, comunicam. Gal Barradas, sócia e co-CEO da BETC/Havas, diz que  as abelhas têm a extraordinária capacidade de primeiro olhar, observar, capturar o que está ao redor e, assim, atuar para transformar. Não por acaso, a abelha é o símbolo global da agência BETC. Neste papo, Gal fala da agência e da experiência, recém-iniciada, na diretoria da Abap.

Que balanço você faz da BETC no Brasil?

Muito positivo. Em apenas três anos, no meio da pior crise econômica do país, conquistamos a confiança de marcas importantes e colocamos trabalhos na rua que reverteram em resultados para os nossos clientes, reforçando ainda mais essa confiança. Este deve ser o objetivo de toda empresa: conquistar a confiança dos seus clientes. Isso se reverte em parcerias de longo prazo, com ganhos para ambas as partes.

Qual é a filosofia da BETC? Como ela consegue manter por aqui sua identidade de inovação, tão forte na França, por exemplo?

A BETC não pensa em formatos. Ela entende qual é o problema do cliente e devolve uma solução em experiências que podem ter múltiplos formatos de comunicação, serviços ou até mesmo produtos. Afinal, comunicação comunica, serviço comunica e produto comunica. Acreditamos no poder da ideia, mas também no poder de realizar essa ideia. Como diz Domenico De Masi, “criatividade é ideia e concretude”. É nisso que acreditamos: o poder de criar e de realizar experiências incríveis. Afinal, o consumidor está no centro de tudo.

Agora, com a fusão com a Havas, qual é a expectativa? Como as culturas se combinam, se falam, se harmonizam?

A cultura da BETC é muito clara. E como diz Rémi Babinet, o “B” da BETC, não é porque uma agência cresceu que ela tem que deixar de ser sexy. Por isso, ele diz que toda agência deve se manter Sexy&Bold. Com a fusão, a BETC passa a um outro patamar, pois a Havas aporta marcas grandes, porém seu posicionamento sempre esteve mais ligado a estrutura, tecnologia, ferramentas. Se olharmos sob a perspectiva de Culture&Code, que o Grupo Havas tem como visão, é uma união perfeita, pois colocaremos a power house criativa e a reputação da marca BETC ao lado da larga expertise da Havas nas suas fortalezas.

Qual é a sua contribuição fundamental para o grupo, na sua visão, como profissional gestora que tem o planejamento no seu DNA?

A BETC é uma das redes do Grupo Havas. Como tal, tínhamos uma vida independente até que eu e o Erh passamos a gerir o Havas Creative Group no Brasil. Creio que a nossa missão no Brasil é a mesma da BETC Paris no contexto do Grupo lá fora. Inspirar, semear o valor de uma cultura da criatividade e inovação para a nossa atividade. No meu caso, especificamente, creio que minha longa estrada no mercado brasileiro e minha vocação em criar conceitos e formar times são ferramentas muito valorizadas em desafios de mudança cultural e alavancagem de negócios como a que temos agora.

Como a agência vem atravessando as crises? Há conquistas possíveis em meio a tantos problemas?

Não é fácil para nenhum empreendedor brasileiro. Mas somos de uma indústria criativa e a criatividade é um asset desejado em tempos de crise. Temos que fazer diferente, ter novas ofertas, muitas vezes fazer mais como menos, otimizar. E penso que essa é a história da própria BETC São Paulo. Nascemos em um mundo novo em que a página da história caía definitivamente, colocando a tecnologia na vida cotidiana em todos os segmentos. Nossa promessa ao mercado, nossa estrutura, nosso modelo de remuneração, tudo está alinhado a esses novos tempos. Isso chamou a atenção dos clientes que buscavam um player com uma nova proposta e aqui estamos.

O que esperar de 2017?

É difícil responder a esta pergunta quando tantas coisas decisivas não estão nas nossas mãos, como a política e a economia, por exemplo. De nossa parte, continuaremos trabalhando com a seriedade e a dedicação de sempre para ajudar nossos clientes a atingirem seus objetivos. O sucesso deles é o nosso sucesso. Simples assim.

Aproveitando um tema que anda sendo bastante discutido: como as agências devem lidar com o fato de que há tantos perfis novos de empresas (como as consultorias) oferecendo o trabalho de construção de marcas e como podem se manter relevantes?

O mundo está em transformação, por isso é natural que as agências também se transformem. Porém, vejo hoje agências de propaganda muito preocupadas em vender “features” ao invés daquilo que está verdadeiramente no seu DNA: usar a criatividade para vender. Comparativamente a outros negócios, podemos dizer que agência é uma mistura de arte e ciência, que resultam em agências de diferentes temperamentos, como podemos exemplificar no confronto de ideias entre David Ogilvy e Bill Bernbach. Um falava sobre argumentação e pesquisa e o outro sobre argumentação e arte. Quem tinha razão? Os dois. Mas ambos tinham um único objetivo final: o de prestar um único e exclusivo serviço aos seus clientes: vender. Vender mais e melhor. E antes que alguém ache que vender é só “transacionar”, lembro que vender é argumentar. Construir marcas também é vender. Por isso, fico refletindo quando vejo publicitários “se vendendo” através de features, ferramentas e não sobre a velha e boa arte de vender. Abandonamos a Madison e corremos pro Vale. Gosto muito e valorizo a tecnologia, ela também nos inspira a novas ideias, mas nada substituirá a arte de encantar, engajar, seduzir, convencer, vender. Nós somos especialistas em conexões culturais que são valiosas e duradouras. Aí vejo o movimento das consultorias, cujo DNA está em processos, análises e estruturas, desejando avançar sobre o mercado publicitário. Enquanto nós, publicitários, não voltarmos a nos orgulhar da nossa profissão, do nosso talento em criar e vender, veremos outros tipos de empresas querendo invadir a nossa praia. Usando a palavra da moda, vamos defender a nossa causa! Eu tenho muito orgulho de ser publicitária.

Qual a sua missão na diretoria da Abap e como vê o papel da entidade nessa nova gestão?

Fiquei feliz quando o Mario D'Andrea me convidou para este desafio, pois ele e a chapa têm objetivo igual ao meu: evidenciar quão importante é a nossa atividade para as marcas, consequentemente para a economia. Entendo a comunicação como um ativo estratégico para os negócios dos nossos clientes. Especificamente sobre a minha participação, pretendo contribuir com meu conhecimento e minha proximidade com o universo “digital” e na formação de profissionais para uma nova era do nosso negócio. Não poderia deixar de registrar que me sinto honrada por ser mulher e estar representando este gênero na diretoria.